Povos Tukano

Os povos indígenas conhecidos como Povos Tukano integram atualmente 17 etnias que vivem às margens do Rio Uaupés (AM) e seus afluentes e também na Colômbia, na mesma bacia fluvial. Esses grupos indígenas falam línguas da família Tukano Oriental e participam de uma ampla rede de trocas, que incluem casamentos, rituais e comércio, compondo um conjunto sócio-cultural definido, comumente chamado de “sistema social do Uaupés/Pira-Paraná”. Este, por sua vez, faz parte de uma área cultural mais ampla, abarcando populações de língua Aruak e Maku.


A família lingüística Tukano Oriental engloba pelo menos 16 línguas, dentre as quais o Tukano propriamente dito é a que possui maior número de falantes. Ela é usada não só pelos Tukano, mas também pelos outros grupos do Uaupés brasileiro e em seus afluentes Tiquié e Papuri. Desse modo, o Tukano passou a ser empregado como língua franca, permitindo a comunicação entre povos com línguas paternas bem diferenciadas e, em muitos casos, não compreensíveis entre si.

 

A história de contato dos povos Tukano com os não indígenas é muita antiga, bem anterior ao grande auge da borracha na virada do século XX, remetendo às incursões maciças dos portugueses em busca de escravos na primeira metade do século XVIII.

Os Tukano compartilham uma área geográfica contínua e um mesmo modo de vida básico, que inclui a caça e coleta, mas no qual predomina a pesca e a agricultura de coivara, sendo a “mandioca brava” o principal produto. No passado, todos moravam em casas comunais (ou malocas) de estilo relativamente uniforme: uma grande construção retangular com teto maciço de forma triangular e portas em cada ponta. Falam línguas muito próximas no que diz respeito à gramática e ao vocabulário. Também compartilham convenções sobre o uso dessas línguas: a maioria fala pelo menos duas línguas e freqüentemente compreende outras, privilegiando a língua paterna nas conversas cotidianas. Esses povos têm ainda estilos de ornamentação corporal semelhantes e, embora as palavras e melodias possam ser diferentes, usam os mesmos instrumentos musicais e a sua música, danças e cantos têm uma base comum. Tais convenções relativas ao modo de vida, organização espacial, língua, fala, adornos, música e dança integram o sistema comum de comunicação verbal e não-verbal dos povos do Uaupés, que se expressa mais plenamente nos rituais inter-comunitários.

Um componente crucial das idéias religiosas tukano são as relações entre os seres humanos, os animais e a floresta.  Para este povo, o mundo das atividades cotidianas e materiais, as coisas que são vistas pelos olhos humanos no mundo objetivo, são apenas uma face da realidade espiritual predominante chamada iyetente. O mundo dos espíritos é invisível aos olhos humanos, mas sempre presente e que é possível ver com a visão espiritual – toyá, que se adquire através da Ayahuasca. Dentro dessa compreensão dos tukanos, a verdadeira realidade só pode ser enxergada pela visão espiritual, possibilitada pela Ayahuasca.

Entre os Tukano, a espiritualidade não é concebida como um domínio discreto, mas sim como uma dimensão de todo conhecimento, experiência e prática. Os conhecimentos técnicos e metafísicos não possuem fronteiras precisas. Os adultos devem conhecer tanto os recursos naturais do território quanto suas propriedades espirituais, combinando afazeres rotineiros com procedimentos rituais.

Os Tukanos possuem dois figurais centrais que ligam a comunidade e a espiritualidade: os yai e os kumu. Enquanto aos yai cabem a função de cura de moléstias físicas e espirituais, os kumu exercem a mais função de sábio e sacerdote do que propriamente um xamã. Seus poderes e autoridade são baseados no conhecimento exaustivo da mitologia e dos procedimentos rituais, resultado de anos de treinamento e prática. Conseqüentemente, aqueles que são reconhecidos como kumu geralmente são homens mais velhos, cujos pais ou tios paternos muitas vezes tinham o mesmo status. O kumu desempenha um papel importante na prevenção de doenças e infortúnio. Ele é um especialista na arte de soprar encantações sobre a carne de peixe e animais para converter a sua substância em uma forma similar ao vegetal. Tem papel proeminente nos ritos de passagem, realiza as principais cerimônias por ocasião do nascimento, iniciação e morte, transições que asseguram a socialização do indivíduo e a passagem das gerações, assim como ordena as relações entre os ancestrais e seus descendentes vivos. É o kumu que nomeia os bebês recém-nascidos e é ele que conduz os ritos de iniciação. Tais transições envolvem um contato necessário e potencialmente benéfico entre os vivos, os espíritos e os mortos. Esse contato pode ser perigoso e é o kumu que assume a responsabilidade de proteger as pessoas. Para aqueles que gozaram da proteção de um kumu durante o seu nascimento ou iniciação, ele é seu guru ou “tartaruga”, em alusão à carapaça dura e protetora desse animal.

Fonte e imagens:
pordinero.org; sidneytur.blogspot.com; revistazaz.com.br; mais.uol.com.br; pib.socioambiental.org.