Povos Suruí

Os Suruí de Rondônia se autodenominam Paiter, que significa “gente de verdade, nós mesmos”. Falam uma língua do grupo Tupi e da família linguística Mondé.

A Terra Indígena Sete de Setembro, onde vivem os Paiter, está localizada em uma região fronteiriça, ao norte do município de Cacoal (estado de Rondônia) até o município de Aripuanã (estado do Mato Grosso). Chega-se à área a partir de Cacoal, através das linhas de acesso 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 14, pelo fato das aldeias estarem distribuídas ao longo dos seus limites, tanto por questões de segurança quanto de aproveitamento de antigas sedes de fazendas deixadas por invasores que se estabeleceram dentro da área nas décadas de 70 e 80.

A denominação de “linhas” é corrente na região, proveniente da marcação dos lotes dos projetos de colonização e expansão fronteiriça, são basicamente estradas que dão acesso a lugares outrora inacessíveis, ao mesmo tempo em que marcam geograficamente a área.

A Terra Indígena Sete de Setembro é banhada pela bacia do rio Branco, afluente do rio Roosevelt e que se forma a partir da junção dos rios Sete de Setembro e Fortuninha. Os principais afluentes do rio Branco que drenam a área são o Ribeirão Grande, rio Fortuninha e o Fortuna, na margem direita. Na margem esquerda há os rios Igapó (nomeado pelos Paiter), rio São Gabriel e outros sem denominação em carta topográfica do IBGE.

A Terra Indígena Sete de Setembro possuía (em 2002) uma população de 920 pessoas , divididas em onze aldeias dispostas ao longo das linhas de acesso, constituindo base de proteção contra a entrada de brancos em seu território. Há aldeias nas linhas 8, 9, 10, 11 (quatro aldeias), 12, e 14 (duas aldeias). A população em cada aldeia é variável, encontrando-se algumas com 45 pessoas e outras com centenas. A aldeia da linha 14 é a maior delas, com cerca de 30 famílias. A aldeia mais recente é a Gaherê, em Pacarana, criada em 2003, com seis famílias.

Os Paiter mantêm na lembrança, transmitida de pai para filho, um tempo em que teriam emigrado da região de Cuiabá para Rondônia, no século XIX, fugindo da perseguição de brancos. Na fuga, entraram em choque com outros grupos indígenas e não indígenas . De fins do século XIX até a década de 20, com a exploração da borracha, a construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré e a instalação das linhas telegráficas por Rondon, o fluxo migratório para Rondônia foi grande e seus efeitos se fizeram sentir sobre a população indígena na região, acarretando muitas lutas e mortes.

Os Suruí Paiter foram oficialmente contatados pela Funai em 1969, no então acampamento da Funai “Sete de Setembro”. Os Suruí só passaram a morar de forma permanente no posto em 73, quando vieram buscar assistência médica em razão de uma epidemia de sarampo que matou cerca de 300 pessoas.

A partir dos anos 80, alguns jovens Paiter que dominavam a língua portuguesa em razão da necessidade de diálogo com os brancos, levaram suas reivindicações até a Funai. Nessa época cresceu entre os Suruí a consciência de como se constitui a sociedade brasileira e a necessidade de lutar pela defesa de seu território e de sua vitalidade cultural. Foram feitas viagens a Brasília para acompanhar passos da administração da Funai e fazer reivindicações. Nesse contexto, algumas tradições renasceram e os mutirões e festas persistiram, porém se adaptando aos novos padrões agrícolas, como o cultivo de arroz e uma maior dispersão da população.

Apesar das pressões que sofrem por parte dos não índios, que têm contribuído para diversas mudanças no grupo, os Paiter ainda mantêm muitas das suas tradições, tanto no que diz respeito à cultura material quanto aos aspectos cosmológicos, que se relacionam com a cultura de outros grupos Tupi Mondé.

Tradicionalmente os Suruí Paiter moravam em casas coletivas divididas internamente por grupos familiares. Hoje em dia a situação se modificou bastante, porém, para uma melhor compreensão da organização social, ilustraremos como, tradicionalmente, se organizavam as casas.

As casas são compridas, sendo a planta em forma de elipse, medindo cerca de 25m x 8m, com uma única porta na parte mais estreita. Sua construção é alta, em forma de ogiva, e atinge até oito metros de altura. A armação é de madeira e coberta de palha. Cascas de árvore, de meio metro de altura, formam a base da parede que protege a casa da chuva, sendo o restante de palha.

Os membros dos clãs que compõem a sociedade Suruí partilham o mesmo conjunto de regras sociais, devendo obrigações uns aos outros. São separados, na vida em comunidade, em duas metades uma ligada ao mato e outra à roça, fazendo com que as famílias mudem de lado em ciclos anuais, sendo assim, quem é do mato passa a ser da roça e vice-versa. Na roça, por exemplo, existe uma cooperação ampla entre os membros dessa metade, além do mesmo afinco cooperativo entre os irmãos e cunhados. Estes, por sua vez, têm a obrigação de ajudar-se mutuamente. Tradicionalmente, todas as atividades econômicas organizam-se em torno do parentesco.

Fica então relacionada a cada metade a idéia de que todos possuem compromissos com o seu lado, nos vários tipos de trabalhos possíveis entre caça, roça e confecção de objetos, cada qual com a demanda da roça ou da mata.

Enquanto os íwai (a metade ligada à comida) precisam de roças maiores para suas oferendas e devem dedicar mais tempo para colher e cozinhar, os do metare ficam na floresta durante a estação seca, embora continuem a trabalhar na roça como os outros. Um conjunto de tapiris provisórios é construído em semi-círculo para cada família nuclear na clareira eleita para ser o metare. A chegada no acampamento se dá em meio a uma algazarra e os homens, em clima de festa e jogo, fazem arcos, flechas, enfeites de pluma ou palha, cocares, em meio a conversas e brincadeiras. As mulheres fazem as peças de cerâmica, os colares, os cestos, fiam e tecem tipóias para carregar os filhos, além de cintos e colares de algodão, tudo com muito urucum. Na aldeia esses objetos também são produzidos, mas no metare os artesãos estão reunidos e orientados para as festas. O metare não é apenas mais ligado à mata e ao jogo das excursões, é também o local onde se prepara e de onde saem as festas. A festa e o trabalho aparecem de forma entrelaçada, pois no metare são produzidos os objetos artesanais, cujo destino são as trocas de presentes na festa do Mapimaí, onde os membros de uma metade passam para a outra e vice-versa. Acontece na colheita ou no plantio, quando as metades trocam presentes e alimentos.

Fonte e imagens:
http://pib.socioambiental.org/pt/povo/surui-paiter; http://blogdoacaibelem.blogspot.com; http://www.nosrevista.com.br; http://www.berohoka.com.br; http://www.flickr.com/photos/andrearibeirofotos